terça-feira, 29 de outubro de 2013

Síndrome da Solidão: você tem?

Não importa se está solteiro ou casado. Não importa sem tem muitos ou poucos amigos. Nem tampouco se é introvertido ou extrovertido. A síndrome da solidão não tem a ver com convites para festas e baladas ou a ausência deles.
Justamente num tempo em que o mundo está cada vez mais globalizado, em que as facilidades para os encontros são inúmeras e de diversas formas, parece que a maioria das pessoas está, cada uma no seu grau, sofrendo de solidão.

A carência parece nos consumir em desejos que inexplicavelmente não se realizam e numa saudade que a gente nem sabe de que, de onde ou de quem. Buscamos o outro sem encontrá-lo, ainda que vivamos um sem número de relações. Este outro, tão esperado, parece nunca chegar. Ou melhor, às vezes parece nem existir.

O velho e bom carteiro continua passando todos os dias. Temos telefone, fax e computador. Dentro dele, os e-mails, as salas de bate-papo, os sites de encontros, o orkut, o gazzag, o multiply e o msn. Temos também blogs, fotologs e skype. Instalamos câmara, microfone e colecionamos uma lista interminável de amigos (alguns que a gente nem sabe quem são... mas vale mantê-los porque nos dão a sensação de estar junto).
Tudo para tentar aplacar este eco interior. Qualquer coisa que preencha o vazio, o abismo que insiste em nos separar de alguém que já fomos um dia ou - pior! - que gostaríamos de ser, mas não sabemos como construir, enfim, a ponte.

Creio que este seja o primeiro passo. Precisamos aprender a construir pontes. Pontes que nos levem até onde desejamos chegar, especialmente do outro lado de nós mesmos.
Estamos sempre do lado de fora, procurando, olhando, observando, acusando, apontando, amando, desejando, rindo e chorando... sempre do lado de fora...
Basta uma conversa, uma situação, um encontro... e lá estamos nós falando do que o outro fez, do que o outro disse, de como o outro nos faz sentir. Basta uma nova paixão ou uma velha briga com quem já está ao nosso lado para encontrarmos todas as justificativas no outro. 

Não temos as pontes, as benditas pontes. Caramba! Nem tentamos construí-las. Simplesmente nos acomodamos com as facilidades dos encontros sem laços com o outro sem nos darmos conta de que o único encontro necessário não tem acontecido há anos, há muito, muito tempo! E assim, muitos estão morrendo, ou melhor, se matando de solidão no meio da multidão. 
Paradoxal? Lamentável? Pode até ser! Mas as saídas existem, eu tenho certeza! Você pode encontrar a sua. Eu posso encontrar a minha. Só que, definitivamente, tem de ser dentro e não fora!!!

Temos confundido liberdade e amor-próprio com egoísmo e individualismo. Olhamos constantemente para o outro, mas não conseguimos vê-lo verdadeiramente porque somente poderemos enxergar alguém - quem quer que seja - depois de termos nos enxergado. Falta nos responsabilizarmos. Falta parar com essa mania desgraçada de acreditar que o outro é o causador dos fatos em nossa vida.

E assim, quando finalmente começarmos a olhar para tudo o que nos acontece com um pouco mais de propriedade, estou certa de que a solidão diminuirá consideravelmente... porque permitiremos a aproximação das pessoas sem tantas ressalvas e compreenderemos que somos todos um e que sozinhos, fechados em nossa concha pessoal não somos ninguém, nossa existência perde qualquer sentido. Não faz link, não tem significado nem importância, porque perdemos a chance preciosa de compartilhar nosso coração.

Sugiro que você aposte mais na delícia dos encontros, mas comece hoje, agora, a construir pontes pelas quais você possa passar... atravessar o abismo que sente aí dentro... Porque do outro lado, está certamente a sua imensa capacidade de mudar qualquer situação para melhor. E que esta mudança inclua a humildade que requer a convivência... para definitivamente conseguir sentir bem mais amor e bem menos solidão. 


 Rosana Braga. 

sábado, 12 de outubro de 2013

Caçador de mim




Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

(...) E ao atender a ligação, dirigiu-se lentamente até a saída... Atravessando a porta fitou de imediato a sombra de uma enorme árvore, e enquanto entristecida caminhava, proferia algumas palavras, quase um sussurro,  e ao chegar enfim a sombra da grande árvore, sentou-se, e com a voz triste respondia com melancolia a quem estava do outro lado da linha...

- "Acabou" pra ela! (disse ao amassar uma folha seca em sua mão direita.)
(E  percebendo que havia dito e não apenas pensado, tentou explicar...)

- É, acabou pra ela! .
- Antes ela era uma folha viva e bonita, agora não passa de um bocado de poeira. 
(Disse ao fitar a poeira deixada pela folha seca em sua mão.)


E o silêncio mais uma vez se fez presente, confirmando que sim, havia acabo, mas não só para aquela folha, era mais, muito mais que isso...




* E, não teria acabo se o coração já não estivesse tão cansado.


Sempre ouvira falar que situações intensas às vezes uniam mais duas pessoas do que décadas de convivência. Agora acreditava naquilo.

É engraçado como uma história aparentemente infantil fala tanto sobre os sentimentos e ações adultas. O Jardim Secreto é um livro para todas as idades, da autora Frances Hodgson Burnett, além de ser um clássico e estar entre os melhores livros do séc. XX.

Imagine ter um jardim lindo, onde os passarinhos são seus amigos, as flores crescem interessadas em saber o que acontece, onde o ar puro faz pessoas voltarem a ser feliz, onde os bichos correm soltos, os passarinhos fazem seus ninhos, onde existem as flores mais belas.

Acho que a intenção da historia, é mostrar que todos nós devemos ter um coração acolhedor e fértil, para poder ajudar outras pessoas, mesmo aquelas que têm corações que são como jardins mortos, apenas parecem mortos, precisam de alguém pra cuidar deles. 



Sinopse: Clássico da literatura inglesa, O jardim secreto conta a história de duas crianças solitárias que decidem restaurar um jardim proibido, cujo mistério remete a um acidente ocorrido anos atrás.A amizade improvável entre os dois personagens funciona como uma metáfora para a descoberta do mundo e para o autoconhecimento.
Escrito em 1911, o livro já inspirou diversas montagens no teatro e três filmes entre eles, o longa americano homônimo de 1993, dirigido pela polonesa Agnieszka Holland, vencedor do prêmio Bafta. 
Esta edição traz introdução e notas da romancista e crítica literária Alison Lurie e um posfácio de Marise Soares Hansen, mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo.

Estranhos

Sem exageros,
Somos estrangeiros,
Turistas desordenados,
Pagando algum pecado,
Passeando aqui na terra,
Descobrindo como é a vida,
Tentando achar respostas,
Para estarmos justo aqui,
Um paraíso lindo e perfeito,
uma mistura desconcertante,
de um lado, muitas maravilhas,
de cores e pessoas tão belas,
e de outro, tantos oprimidos,
enclausurados no sistema,
reféns da própria cegueira,
banalmente manipulados,
caminhos distantes,
mesmas pegadas,
querendo chegar,
quem sabe,
ao mesmo,
lugar...


EQUACIONANDO SENTIMENTOS, VERA FONSECA, escritora e poetisa.)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

" Do mesmo modo que de uma droga temível, o ser humano goza o privilégio de poder tirar prazeres novos e sutis até mesmo da dor, da catástrofe e da fatalidade. "

O P D H  /  C. B         -          Pg. 14

Telepatia, a Comunicação Silenciosa

Como Ocorre a Comunhão das Ideias,
no Oceano dos Pensamentos Humanos
 
 
Carlos Cardoso Aveline


Durante uma reunião, você tem uma ideia e no mesmo instante alguém fala a todos aquilo que você acaba de pensar. Você pode supor que é coincidência. Em outra ocasião, você pensa em alguém e em seguida toca o telefone. Você atende e escuta a voz de quem? Da pessoa em quem pensava. Você pode forçar-se a concluir que é um acaso. Mas um dia você acorda lembrando de um amigo de quem não tem notícias há muitos anos e, horas depois, recebe uma carta dele. Ou você chega a uma reunião no momento exato em que seu próprio nome está sendo mencionado.
 
Embora sejam comuns na vida diária, nenhum destes fatos é uma simples coincidência. Eles constituem exemplos concretos de uma das funções mais fascinantes da consciência humana: a telepatia, a percepção ou transmissão de sentimentos e pensamentos a distância.  
 
O termo “telepatia” é feito de duas palavras gregas; “tele” (“à distância”), e “pathos” (sentimento, sofrimento).  O significado literal é “sentir a uma distância”. O termo engloba, portanto, mais do que a mera transmissão de pensamentos lógicos e definidos. Inclui todos os tipos de contato entre duas ou mais mentes, quando este contato transcende a ajuda dos cinco sentidos.
 
O fenômeno é mais comum do que geralmente se pensa, mas acontece quase sempre de modo semi-consciente ou  inconsciente. Se todos soubessem que a telepatia se processa o tempo todo e está presente nos vários aspectos da vida diária, teriam mais cuidado não só com o que dizem, mas também com o que pensam e sentem em relação a cada pessoa e situação. A afinidade magnética que possibilita a telepatia pode ser harmoniosa ou desarmoniosa. As trocas telepáticas são fonte de sofrimento ou de bênçãos. Nem tudo que é similar se harmoniza. Nem tudo que é diferente se complementa. Para evitar problemas, a melhor coisa a fazer é deixar de pensar de maneira errada e aprender a pensar corretamente.    
 
Em certas condições, e especialmente quando fazemos silêncio em nossas mentes, somos capazes de ouvir pensamentos. Não escutamos palavras, mas percebemos as ideias e os sentimentos íntimos dos outros. Os pensamentos se transmitem de modo natural. A telepatia ocorre em silêncio e ao lado da comunicação verbal. Ela se apóia na palavra como seu veículo e instrumento. É ela que dá um sentido mais profundo ao que uma pessoa fala ou escuta.  A telepatia re-escreve um velho ditado popular e afirma:
 
O que os olhos não vêem, o coração sente”.
 
Uma família, um grupo de amigos e uma escola de filosofia são de certo modo campos telepáticos. São territórios sutis habitados por grupos de pensamentos e sentimentos. A telepatia inconsciente também é responsável em grande parte pelo fenômeno dos hábitos coletivos e das opiniões que passam a ser consenso. E ela explica o fenômeno da liderança.
 
A transmissão de ideias faladas ou escritas é, assim como a telepatia,  um processo magnético. Uma ideia correta, lançada por alguém num momento e num contexto favoráveis, se transmite com rapidez às consciências de muitos. A mesma ideia correta, lançada em momento ou contexto desfavoráveis, pode não ser recebida magneticamente por mente alguma, necessitando de muito tempo para ter o seu valor reconhecido. Em todas as épocas, os pioneiros da evolução devem abrir terreno novo em condições difíceis, desafiando o peso acumulado da ignorância coletiva, até que suas ideias sejam reconhecidas e se transmitam amplamente, rasgando o véu das ilusões anteriores.  Os pioneiros da fraternidade universal, por exemplo, trabalham há muitos milênios, e não mantêm viva apenas a percepção deste ideal, mas preservam acima de tudo a sabedoria e o discernimento que o tornam possível. A tarefa deve prosseguir até que, no momento certo, a humanidade desperte do sonho empobrecedor que é a ausência de fraternidade.   
 
No plano individual, a telepatia é uma forma de diálogo direto das auras humanas. Ela reforça e acelera os processos de afinidade e desarmonia. Quando um cidadão conhece alguém e simpatiza com a pessoa, pensa bem dela. O pensamento e o sentimento positivos chegam até o outro e – se houver real afinidade – podem surgir a amizade e a cooperação. Quando o indivíduo antipatiza com alguém, seus pensamentos e sentimentos chegam de modo igualmente certeiro à outra pessoa e, se outros fatores não forem mais fortes, surgirá um sentimento negativo recíproco.
 
Uma conclusão prática a ser tirada deste fato é que se você alimentar sentimentos equilibrados e construtivos para com todos – mesmo os que lhe são antipáticos – a lei da reciprocidade magnética e da circulação dos pensamentos e sentimentos fará com que você colha os bons frutos que plantou. O universo não tem – nem permite – segredos duradouros que signifiquem incomunicação ou separação.  Há apenas coisas que o indivíduo ainda não entende, ou para as quais não está preparado. Os verdadeiros segredos esotéricos, por exemplo, são preservados apenas porque ocorrem em planos de pensamento abstrato e universal que não podem ser alcançados pela mente despreparada e desatenta, e teriam efeitos nocivos sobre ela. A lei do carma não admite exceções: o que vai, volta, o que se planta, se colhe. Tudo o que você faz, pensa, sente, sonha e pretende em relação aos outros e a si mesmo fica registrado e, seja bom ou ruim, dará seus frutos no devido tempo, incluindo vidas futuras da sua alma imortal. Este é o grande poder, e a enorme responsabilidade, do pensamento humano.
 
O magnetismo das ideias solidárias é propício à transmissão telepática. Isto não significa que os sentimentos rancorosos não se transmitam. Eles se transmitem bem no curto prazo, mas a médio e longo prazo tendem a provocar incomunicação e isolamento. Rancor e pessimismo provocam separatividade. O magnetismo da solidariedade une e desperta confiança. Para a pensadora Helena Blavatsky, a única coisa que pode separar duas mentes é a diferença entre os estados de espírito delas, e não a eventual distância física. Ela escreveu:
 
“Não está muito longe o dia em que o mundo da ciência será forçado a reconhecer que pode existir tanta interação entre duas mentes, seja qual for a distância entre elas, como entre dois corpos em contato direto. Quando duas mentes estão harmoniosamente relacionadas e os instrumentos pelos quais elas funcionam estão regulados de modo a responder magnética e eletricamente um ao outro, não há nada que possa impedir  a transmissão voluntária de pensamentos de uma mente para a outra; porque, como a mente não tem uma natureza física, a distância não pode separá-la do objeto da sua contemplação, e a única diferença que pode haver entre duas mentes é a diferença de ESTADO.  Se este obstáculo for removido, onde está o ‘milagre’ da transferência de pensamento, seja a que distância for?” [1]
 
A telepatia inconsciente que liga as mentes humanas está no alicerce da tradicional vigilância dos pais para garantir que os filhos tenham amizades corretas. Se alguém convive com quem tem bons pensamentos, recebe telepaticamente aquela energia.  É verdade que nem sempre é indispensável estar junto a pessoas que pensam corretamente. No Novo Testamento, Jesus se rodeia de pecadores e os inspira e os leva à recuperação moral e espiritual. Um homem bom e sábio tem o poder de irradiar luz e paz ao seu redor, e é protegido por sua própria pureza da contaminação magnética de sentimentos negativos. O clássico budista “Dhammapada” afirma:
 
“Eu chamo de brâmane [sábio] aquele que é amável entre os hostis, suave entre os violentos, e livre de ambições entre os que cobiçam” [2]
 
É pela telepatia inconsciente que, quando estamos com uma pessoa verdadeiramente santa, nos sentimos inspirados e elevados.  Por isso os clássicos Versos de Ouro de Pitágoras  aconselham: “Escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso”.
 
A lei geral diz que “semelhante atrai semelhante”. O indivíduo deve deixar-se levar pela atração natural que o bem e a verdade exercem sobre ele, limitando e evitando outras influências. Mas de que modo funciona a transmissão de pensamentos?  Em que dimensão da matéria sutil ela ocorre? O teosofista indiano Subba Row escreveu no século 19: “A explicação do fenômeno da transferência do pensamento depende da existência do fluído astral, um fluído que existe em todo o sistema solar, mas que não vai além dele.”
 
Para a ciência esotérica, o akasha ou luz astral é a contrapartida sutil e transcendente dos planos material, vital, emocional e mental da vida. Subba Row acrescentou:  “Talvez a ideia da matéria em sua condição ultra-gasosa – matéria radiante – possa ajudar-nos a conceber o fluído astral”. 
 
O termo “matéria radiante” se aplicava, no final do século 19, às primeiras descobertas científicas sobre aquilo que, mais tarde, seria chamado de energia radiativa  e de energia atômica. Tecnicamente, a energia atômica pertence a um nível inferior do akasha ou luz astral.
 
Subba Row afirma que o fluído astral existe uniformemente por todo o espaço do sistema solar. Mas ele é mais denso em torno de certos objetos ou organismos, devido à ação molecular destes pontos: “Este é o caso, especialmente, do cérebro e da coluna vertebral dos seres humanos, onde o fluído astral forma o que é chamado de aura. É esta aura em torno das células e fibras nervosas que capacita o homem a perceber as impressões registradas na Luz Astral do cosmo.”
 
Cada pensamento ocorre junto com uma alteração correspondente na energia do sistema nervoso. A médio e longo prazo, o sistema nervoso sempre se adapta à natureza dos pensamentos que temos. Subba Row explica que a energia dos nervos tem sua própria aura, como ocorre com qualquer agregação de moléculas no mundo natural. Há uma ligação íntima e direta entre a energia dos nervos e a aura astral e magnética que os rodeia.  A aura é uma verdadeira antena ligada para o mundo sutil.  Ele escreve:
 
“Observamos que em certos casos um sentimento de calamidade é experimentado por uma pessoa, quando um amigo fisicamente distante está morrendo. Acreditamos que, de algum modo, nossas ideias mentais estão conectadas com as emoções de prazer e dor. (...) Algumas correntes podem transmitir sentimentos sem imagens (...)” [3] 
 
Conforme a qualidade interior da sua consciência, cada cidadão terá o hábito ou será capaz de sintonizar e trazer para si por um esforço consciente determinados níveis da realidade.  Ninguém é vítima das circunstâncias. O próprio ser humano cria a atmosfera psíquica em que lhe cabe respirar e viver. Um raja-iogue dos Himalaias escreveu:
 
“Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade viva (...). Ele sobrevive como inteligência ativa – uma criatura gerada pela mente – por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, e o mau pensamento como demônio maléfico. O homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage em relação a qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela, na proporção da sua intensidade dinâmica.” [4]
 
O ser humano carrega em sua própria aura uma bagagem completa de pensamentos, de emoções e de registros de fatos do passado. Leva também as sementes diretas e indiretas do seu futuro. Parte deste conteúdo vem de vidas anteriores.  O conteúdo da aura individual guia a pessoa ao longo da vida, mas não lhe suprime a liberdade ou a responsabilidade.  Seu livre arbítrio consiste em escolher o carma que irá plantar a cada momento, e decidir que sementes fará germinar dentro das condições existentes. Em grande parte, ele pode escolher de que influências se rodeia, e está ao seu alcance trabalhar para que as circunstâncias se renovem sempre para melhor. 
 
Há inúmeras possibilidades de interação entre as consciências. O bom senso manda lembrar que cada ser humano é um resumo do cosmo e contém um mundo dentro de si. Quando duas pessoas têm opiniões diferentes sobre alguém, isso ocorre muitas vezes porque elas detectam ou priorizam componentes diversos do ser total daquela pessoa. Não existe observação absolutamente neutra. Toda observação exerce alguma forma de influência sobre o ser ou objeto observado. Quando o indivíduo tem consciência do fato da telepatia involuntária e está disposto a agir corretamente diante deste desafio, ele trata de purificar sua mente e deixa de lado a tentação do pensamento destrutivo. Fazer isso fica mais fácil quando o seu olhar está voltado para a sabedoria universal. A mente humana é do tamanho daquilo que ela contempla, e nenhuma mente é pequena quando se dedica a metas elevadas.
 
Helena P. Blavatsky afirmou que é difícil encontrar alguém  que não seja influenciado pela vontade ativa de outra pessoa. Ela deu alguns exemplos. Na guerra, quando um oficial que é visto com admiração vai para o front da batalha, os soldados entram em sintonia magnética com ele e compartilham do seu entusiasmo. Seguem-no sem medo, enfrentando o perigo com bravura. Na igreja, o pregador religioso se ergue em seu púlpito e, ainda que diga o absurdo mais incongruente, seus gestos e o tom de lamentação da sua voz serão capazes de produzir uma mudança no estado de espírito do público. No teatro, as pessoas choram ou riem de acordo com o caráter do espetáculo.[5]  Todos nós somos afetados o tempo todo pela vontade, pelos sentimentos e pelos pensamentos dos outros. E também os afetamos.
 
Quando alguém forma descuidadamente uma opinião negativa e inverdadeira de outra pessoa, comete um erro que não ficará impune. Aquele que é sensato evita formar opiniões negativas sobre as pessoas que ama, e também sobre as pessoas de quem não gosta. Todos são influenciáveis em alguma medida. Deve-se ter cuidado com a crítica aberta, se ela for destrutiva. Mas o pensamento negativo que não é falado pode ser ainda pior, porque age de modo desapercebido. Deve-se ver as pessoas com um olhar generoso, e criticar honestamente as atitudes específicas que se considera erradas.
 
A visão geral que temos do outro deve ser positiva pelo menos por dois motivos. O primeiro é que temos motivos para reconhecer que o outro funciona, em parte, como um espelho de nós mesmos. Em segundo lugar, sabemos que cada ser humano possui, assim como nós, um potencial ilimitado para o bem. A crítica deve limitar-se, pois, ao detalhe, ao instante, ao aspecto isolado. Não se deve criticar alguém sem mencionar sinceramente algumas das suas virtudes. Seria pouco inteligente, portanto, esquecer que cada ser humano tem em si a semente da perfeição. Somos todos alunos e professores na escola da vida, e ajudamos a construir o caráter uns dos outros, inclusive através dos processos telepáticos involuntários. 
 
O cidadão atento está consciente de si mesmo e do seu propósito em relação a cada situação concreta. Deste modo ele não é levado como uma folha seca pelo vento ilusório dos pensamentos alheios. O bom aprendiz espiritual busca ser plenamente consciente dos sentimentos e pensamentos que emite, e estuda com paciência o processo pelo qual ele colhe, a cada momento, os frutos que lhe correspondem. Gradualmente, ele aprende a plantar o bem. Então os pensamentos e sentimentos que produz, emite e transmite aos outros e à atmosfera astral passam a ser cada vez mais íntegros e ele se transforma em um centro de paz.  É nisso que consiste a libertação espiritual.
 
Tudo no universo é feito de energia pulsante, e há inúmeros níveis de vibração. As cores, luzes e sons que percebemos, assim como as sensações de gosto, tato ou olfato, são todas ondas e faixas vibratórias. No ritmo das batidas do coração, no movimento dos pulmões e no fluxo de pensamentos e sentimentos, os movimentos da vida e a essência da matéria são cíclicos e ondulatórios. O seu ritmo, porém, nem sempre é percebido com nitidez. O oceano infinito da vida possui correntezas bastante diversas. Ligado a uma onda de vida, o ser humano usa seu livre arbítrio para estabelecer seu mantra individual, um modo de vibrar e de expressar a Lei Una. Mas ele não pode esperar que o que faz seja apenas seu. Tudo que vibra em um indivíduo se transmite a outros e retorna até a origem, não sem distorções e acréscimos.
 
Todo ser humano produz constantemente correntes vibratórias nos vários níveis do pensamento, da emoção e do mundo físico, e estas linhas de ação ficam registradas na luz astral para seu débito ou crédito. Os pensamentos e sentimentos criados passam a ter uma certa vida própria. O rumo e o efeito deles dependem, sobretudo, da intenção e da força com que foram emitidos. A aparência não conta: a crítica dura é bom carma quando a intenção é a superação do erro na direção da sabedoria. O elogio afável é mau carma, quando há insinceridade. A astúcia é o oposto da inteligência.
 
Existem telepatias positivas e negativas, mas a que interessa estimular é a telepatia que ocorre no nível da comunhão universal de todos os seres. Ninguém está separado. Nossos pensamentos, sentimentos e intenções criam uma faixa de sintonia magnética que nos une a tudo e a todos sobre os quais concentramos nossa atenção, e com os quais interagimos em nossa mente. A vida e o carma ouvem e registram nossos pensamentos.  E cada ser humano pode melhorar a qualidade do “som oculto” único que lhe é peculiar, e que é produzido pela soma total de seus pensamentos, emoções e ações.   
 
O universo é um oceano que possui um patamar superficial de vida, e ali pode haver agitação e aparente desencontro. Ao olhar mais profundamente, vemos que tudo flui em unidade no mar dos pensamentos humanos. Aquele que assume plena responsabilidade sobre sua vida deixa de atuar de modo dispersivo. Ele concentra a energia vital em torno de metas permanentes. 
 
Ele adota um objetivo de vida que é digno da sua alma imortal.
 
Os testes e provações serão indispensáveis para que o progresso seja sólido e durável, mas a paz interior passa a estar cada vez mais presente. A mente ganha estabilidade; surge um processo natural de distanciamento dos pensamentos desordenados. O olhar passa a ver mais longe. O céu da sua consciência fica claro e amplo, livre de nuvens e tempestades. É neste momento que a comunhão e a percepção conscientes do pensamento e do sentimento começam a ocorrer sem grandes obstáculos.   
 
 
NOTAS:
 
[1]  “The Key to Theosophy” (“A Chave Para a Teosofia”) , Helena P. Blavatsky, Theosophy Company, Los Angeles, 310 pp., 1987,  ver capítulo XIV, p. 291. Há várias edições da obra em língua portuguesa.
 
[2] “The Dhammapada”, Theosophy Company, Los Angeles, 139 pp., ver capítulo 26, p. 93, aforismo 406.  
 
[3] “Esoteric Writings”, T. Subba Row, Theosophical Publishing House, 576 pp., Índia, 1980, ver pp. 130-138.
 
[4]  “O Mundo Oculto”, de Alfred P. Sinnett, Ed. Teosófica, Brasília, 2000, 232 pp., ver pp. 130-131.
 
[5]  Estas ideias estão presentes no artigo  de Helena Blavatsky intitulado “Are Chela Mediums? (“Os Chelas São Médiuns?”). O artigo está disponível na seção “Helena Blavatsky”

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Amores simples, amores loucos, amores sem esperança, amores grotescos – isso sem falar no meu, que competia em todas as categorias.

[Luis Fernando Veríssimo In: A Décima Segunda Noite, pág. 37]

domingo, 6 de outubro de 2013

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem
sem fatalidade o olhar estático da aurora.

[Vinícius de Moraes, Ternura In 'Poesia completa e prosa']

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Mas ela sabe, que embora a vida esteja gentil agora, a dúvida ainda assombra cada parte da sua memória.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"   […] As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.  "

-Memória, Carlos Drummond de Andrade.  

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Se se morre de amor – Gonçalves Dias

Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores,murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

(...) Um temperamento meio nervoso, meio irritadiço, é o mais favorável para a evolução de tal embriaguez; acrescentemos um espírito cultivado, adestrado nos estudos da forma e da cor; um coração terno, cansado pela infelicidade, mas ainda pronto a rejuvenescer; se você cocordar, iremos até a admissão de velhos erros e o que eles devem acarretar numa natureza facilmente excitável: se não remorsos propriamente ditos, ao menos o pesar pelo tempo profanado e mal empregado. O gosto da metafísica, o conhecimento das diferentes hipóteses da filosofia sobre a existência humana não são, é claro, complementos inúteis - como tampouco o são aquele amor à virtude abstrata, estóica ou mística, que é definida em todos os livros de que se nutre a infância moderna como o mais alto patamar a que uma alma distinta pode ascender. Se acrescentarmos a tudo isso uma grande finura de sentidos, que omiti como condição suplementar, acho que reuni os elementos gerais mais comuns do homem sensível moderno, daquilo que poderíamos chamar de "a forma banal de originalidade". (...)

Pg. 55

sábado, 10 de agosto de 2013

Na delicadeza das palavras procurei escrever sua presença e descrever o quanto é fascinante pensar você. Entenda que minhas mãos livres, que agora se dedicam à escolha das palavras certas, gostariam de estar presas às suas para te prensar: te segurar: e não te deixar voar. E que meus lábios secos, que agora se dedicam ao deserto silêncio da imaginação, gostariam de molhar os seus e desaguar no seu mundo até você florescer e germinar e brotar no jardim da minha poesia, como os lírios peruanos: suas flores preferidas: que sobrevivem muito bem sozinhas, certo, mas vivem muito mais quando têm alguém para alegrar suas dores ou admirar a beleza de suas cores. Entenda também que quando não ouvi sua voz: escrevi o timbre doce e delicado do som das suas palavras. Quando não te vi: descrevi toda a grandeza e a escuridão que habitam na profundeza lírica dos seus olhos. E quando não consegui te tocar ou alcançar a maciez da sua pele: improvisei literalmente a textura da sua derme: tão branca: tão macia: e pude tatuar palavras que eu não sabia que existiam: e pude tatear tua alma como quem acaricia estrelas no céu, sem saber que elas também brilham e se espalham no chão: sem saber que elas brilham e se espelham em você para iluminar o mundo: o meu mundo. [pensar você; antônio]
E assim nós prosseguimos, barcos contra a corrente, empurrados incessantemente de volta ao passado.


- F. Scott Fitegerald.
Os tristes têm duas razões de tristes ser: eles ignoram ou eles esperam e, na maioria dos casos, esperam porque ignoram.


Albert Camus - O Mito de Sísifo.

CAPÍTULO XXXII - OLHOS DE RESSACA

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.


Dom Casmurro (Machado de Assis)